Sofá... Sofá... Sofáááááááá !
Sento-me, deito-me no sofá. O dia acabou. "Mas não é um bocado cedo?"; "Tens razão..."
2009, Abril, 14, Terça-Feira, 14 horas, 22 minutos, meros segundos. Cedo. Não é terça-feira santa. É dia de tortura, é dia cinzento. Ou será mais dia de regresso? Dia Vermelho?
Acabaram-se as noitadas. Ontem, apesar do excesso, a noite começou bem mais cedo que o habitual. A noite caíra cedo, o escuro não era escuro. O vento soprava lá fora. A luz era artificial, jogando com o ligeiro canto atmosférico. O corpo estava disposto a tudo... Preferia estar deitada, querendo prolongar a posição frente ao ecrã de televisão colorida. Via a história enigmática, via as cores a mudarem a dos meus olhos. Verde, Castanho, Verde, Castanho.
Carrega-se no botão. Olhando para o relógio, percebo que acabou. Sim, acabou! "Não vais ver mais documentários a horas indecentes". (Porque é que tudo o que tem interesse só passa na caixinha colorida tão tarde? Ou será demasiado cedo?) Troco a ciência neurológica, genética ou cardíaca pelas letras, pelas vírgulas, pelas palavras do Lobo Antunes Jr. Jr. . Esqueço a mudança louca, alucinante dos intervalos, dos chocolates a meio da madrugada, dos conhecimentos que as férias nos dão. Viro-me para o livro em cima da mesa de cabeceira, estampado a preto no fundo bege, escondido magnificamente pela capa azul e cinzenta, mostrando sinais da bela e majestosa New York City.
Entro nas histórias, nas crónicas do benjamim lobito, que de pintor chega (e bem!) aos calcanhares do chefe da alcateia. "O Sr.Dr. sente saudades..."... "O Sr.Dr. foi arrancado do seu hospital..." ... "O Sr.Dr. é PESSOA"...
E também eu o sou. Todos desejam prolongar as férias "só mais um bocadinhoooo...". Eu não. Hoje, regressou-se à rotina. Para mim, esse é o único mal feitor de tantos regressos, sempre desejados, sem qualquer pudor, pela minha alma, pela minha essência. Todos desejam ficar pelo sofá "só mais um bocadinhoooo...". Eu não. Divido-me agora em dois seres distintos, unha da mesma carne, tão parecidos, tão distintos. Existe aquele que quer ficar largas horas a ouvir falar das TACs dos assassinos ou da nova descoberta genética do cariótipo humano. E existe o lado romântico. Existe o meu anti-Eça, que goza com todo aquele detrimento dos sentimentos, das emoções, das ilusões oásicas do deserto humano, da utopia pessoal. Quero lá saber de razões, de ciências exactas, de realismos! Se me querem objectiva, não-filosófica, peçam ao escritor da obra predilecta do 11º ano, Os Maias, para ressuscitar, tal Cristo das palavras. "Aiiii que o homem dá voltas na cova...!"
Quero voltar aos meus corredores escuros, iluminados pelos sorrisos dos conquistadores, com jeitos nada Quixoteanos, com os seus olhares que, dia após dia, arrebatem este coração mole, pedindo "só mais um bocadinhoooo...". Quero voltar a chamar os que de férias regressaram a "casa". Quero-os ao pé de mim. Quero ser egoísta, quero ser uma anti-altruísta, QUERO-OS AQUI. A tocarem-me na alma, a acenderem-ma, a gastarem a lenha que só acabará com a minha companhia junto do Eça. Quero que agarrem nos pincéis pastéis, grosseiros, e que apaguem a palavra saudade do meu dicionário, da minha tela. Quero sentir-me Pessoa, quero sentir-me eu. Tempo, devolve-me aqueles que nas férias ficam a gozar a limpeza das mãos, sem giz, sem suor, sem rouquidão. Espaço, devolve-me os passos lentos, firmes, seguros àqueles corredores escuros, cinzentos mas sempre, SEMPRE, Vermelhos.
Ganha assim o livro. Ganha assim o regresso. Sou persistente, não sou?
Esqueço o trabalho que se segue. Hoje, sou da melancolia dos beijos, dos abraços, das palavras reclamadas, dos sorrisos cúmplices. Sou deles, sou de vocês.
Deixo a banda sonora avançar, ouvindo as marcas a ferrarem-se como abelhas ferozes, implacáveis. Vejo as evidências na moldura, nos cadernos, nos dossiers. Hoje tenho o mundo nas minhas mãos, tenho a realidade romântica, que sem dúvida seria a melhor corrente para um romance em pleno século XXI. "Descartes, perdoe-me por ter vivido somente há 2 séculos atrás...!"
Venha a Filosofia roubar todo o brilho à ciência. Venha a rotina roubar toda a monotonia da arte de nada-fazer.
"Fecha os olhos... Imagina-nos no comboio, em pleno pôr-do-sol. O horizonte permuta o azul... É laranja avermelhado. Sentes? Diz-me que sim. Quero roubar um pouco daquela cor e injectá-la no teu peito. Posso? Diz-me que sim. Não quero estes quilómetros a separarem-nos. Tão poucos que chegam a ser meros metros. Vou largar a paisagem e sentar-me ao pé de ti outra vez. Deixas? Diz-me que sim. Sorrio, entro no teu olhar, toco na tua alma. Passo o portão, piso o chão, atinjo o apogeu. O sonho comanda a vida. Comandas a minha? Diz-me que sim. Dou-te o isqueiro, dou-te o leme, dou-te o mundo, o universo, o que quiseres. Aceitas? Diz-me que sim..."
O longo que tão de curto teve. Os rostos que nem se mostraram, que nem se viram. Amanhã há mais? "Diz-me que sim..."
"Fecha-se o livro. Desliga-se a luz". Não é New York City. É Portalegre. Não é cedo. É tarde. Não são 5h. São 1h30. Não é sofá. É cama. Não é escuro. É laranja. Não é realismo. É romantismo. Não é tortura. É regresso !